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Fátima Bernardes e colegas da Globo se solidarizam com jornalista que revelou “sistema adoecido” na emissora



Com 30 anos de Globo, o jornalista Fabrício Marta recebeu a solidariedade de Fátima Bernardes e outros colegas da emissora em seu perfil no Instagram onde anunciou que pediu demissão do grupo de comunicação após ser cobrado por um atestado no leito do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) onde se recuperava de um infarto.

Em meio às revelações sobre os bastidores de sua atuação na emissora, Marta divulgou uma imagem da visita de Ana Paula Brasil, gerente de responsabilidade social da Globo, e recebeu elogios e a solidariedade de colegas de emissora.

“Saí da sedação e dei de cara com @anapaulabrasil. Deu o jeito dela e invadiu o CTI pra dizer que eu (ainda) estava vivo. Não sei como fiz a foto, mas ela está aí: testemunho de todos os amigos que estão me ajudando a desfazer os trombos no coração e na alma. Não fossem todos vocês, moradores dos meus ventrículos, eu não estaria aqui para agradecer o que vocês são em mim. Vocês não têm noção”, escreveu o jornalista, que sempre demonstra bom humor em seus textos.

“Você merece todo esse amor. Sabe distribuir afeto com humor. Nada pode ser melhor”, comentou Fátima Bernardes, que dividiu a apresentação do Jornal Nacional por anos com o ex-marido, William Bonner.

“Você é muito especial. Lembro quando cheguei naquela redação sem conhecer ninguém, em 2008, com a experiência do Profissão Repórter e uma cidade inteira pra desbravar. Nunca vou esquecer do apoio que recebo até hoje! E tantas coisas aconteceram nas nossas vidas nesse tempo todo! Temos filhos, passamos perrengues…mas esse amor e esse carinho são maravilhosos!”, emendou Ana Paula Santos.

“Sistema adoecido”

Se recuperando de um infarto, quando pediu demissão do cargo de Chefe de Produção, Fabrício Marta seguiu os passos dos colegas Neide Duarte e Ari Peixoto, e denunciou o que classifica como “sistema adoecido” no jornalismo da Globo em meio ao escândalo do Power Point do caso Master – que fez com que Andreia Sadi, da Globonews, se desculpasse em nota protocolar nesta segunda-feira (23).

Marta iniciou as publicações sobre a emissora no domingo (22) em seu perfil no Instagram ao falar de “um dos “pedidos mais perversos” feitos a ele como chefe dos produtores Globo para avisá-los sobre o corte nas horas extras – “no facão”, como diz – no mês corrente.

Em seguida, Marta começa a falar de sua saída, decidida no leito da Centro de Tratamento Intensivo (CTI) após ser vítima de um infarto.

“Deixar a Globo é deixar um sistema adoecido pela falta de sensibilidade e nutrido pela malandragem”, diz ele, ressaltando que “a mesquinharia de um ambiente mofado de sobrevivência ao trabalho se dá pela pobreza de espírito que o cerca”.

“Departamento de Cuidados à Pessoa da Globo”

Em nova publicação nesta segunda-feira, o jornalista conta detalhes sobre a demissão, decidida no leito do CTI, ao receber uma mensagem de WhatsApp “da mocinha do Departamento de Cuidados à Pessoa da Globo, que, muito gentilmente, pediu que eu anexasse meu atestado médico ao sistema da empresa: lá mesmo do hospital”.

“Expliquei que ainda não havia previsão de alta, mas a moça insistia. E não era I.A”, conta.

“Pensa: você recém-infartado, com acesso pra aplicação de contraste num braço, outro acesso pra coleta de sangue no outro… Sem dormir… Porque não se dorme num CTI coronariano, sem saber se vai morrer e deixar um filho com 17 anos, e a cidadã em busca de algo que eu não poderia montar nem com Lego. Fascinante esse modelo de acolhimento”, afirma o jornalista.


Marta segue dizendo ter perguntado “se ela agiria com a mesma afobação com a Renata Vasconcellos, William Bonner, Pedro Bassan, Flávio Fachel… Resposta: o modelo contratual deles é PJ, difere do seu”.

“Ladeira abaixo na Globo”

Em outra publicação em seu perfil, Marta descreve como o jornalismo está “ladeira abaixo na Globo” ao falar de “pesadelos que, felizmente, já não me pertencem”.

“Além de não incentivar, a Globo não custeia mais a participação de jovens produtores no Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji.
A cada edição vindoura, rosários e mais rosários eram desfiados diante na minha ex-mesa: o chefe de redação que não podia nada pelos 23 produtores. Não conseguíamos passagens de ônibus; área (hahhahhaha); hospedagem também não. Os que conseguissem se bancar no estilo largados e pelados, ganhavam um vale-podrão e um Uber, acho. Estamos falando do terceiro conglomerado de comunicação do planeta. Cafonice define”, relata.

O ex-chefe da produção da Globo ainda revela que após a saída de Bonner, o ambiente no Jornal Nacional piorou, com a colocação de placa de acesso restrito na redação do telejornal, agora comandado por César Tralli e Renata Vasconcellos, que permaneceu na bancada.

“Bonner proclamou, dias antes de deixar o JN, que o cenário do telejornal era um “santuário” e exigiu providências quanto ao acesso de visitantes. No dia seguinte, brotou essa placa medonha e antipática na redação. A marca de um cara que tinha tudo pra ser Deus resumida a um recado de síndico decadente”, diz o texto, juntamente com a foto da placa colocada na redação do JN.

Power point e “ombros amigos”

Na noite desta segunda, Marta voltou à rede e ironizou o Power Point sobre o caso Master, que gerou o pedido de desculpas lido por Andreia Sadi na Globonews.

“Contrato profissionais de PowerPoint da GloboNews para fazer meus cartões de visita. Aqui em casa já tem barbante colorido, tesoura, cartolina colorida, cola branca, hidrocor e giz de cera. Preciso mesmo é do know-how. Vai ter lanche, se a direção aprovar”, lançou.

Já na manhã desta terça-feira (24), o jornalista voltou ao Instagram para agradecer “pelos ombros amigos nesse compartilhar selvagem, nos últimos dias”.

“O publicável foi dito conscientemente. Antes de chegar à Globo, em 2006, eu já havia trabalhado no “JB” (onde tive a sorte de ser estagiário e contratado); em “O Globo” e em “O Dia” – onde aprendi o que era Jornalismo. Todos os lugares têm defeitos. Estou há meses tentando consertar um vazamento em casa. A diferença está no empenho, no desejo, na exposição pública honrar os que mais precisam – aqueles que fazem a roda girar. Sem milho, não tem pipoca. Sem jornalistas remunerados, não há redação de qualidade”, diz.

Em seguida, ele fala que a produção é a “escuta é a gênese de um processo como esse, porque está TUDO ERRADO”.

“Devo à Globo pouquíssimos inimigos (se bem que a lista aumentou agora!) e à construção de uma família unida e ouriçada: turma madrugadora do Entretenimento; amigos incansáveis das afiliadas!!!!; e da própria redação da Globo RJ. Torço, de coração com seis stents, por uma governança mais humana e vanguardista – capaz de mover cada um de vocês desse brejo com água parada para o lugar que, de fato, mereçam ocupar”.



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