Há apenas 32 quilômetros de distância, separados pela estrada mas unidos pelo mesmo chão do Sertão do São Francisco, existem duas realidades completamente diferentes quando o assunto é festa pública, dinheiro do povo e respeito ao cidadão. De um lado, Dormentes, cidade vizinha que todos os anos realiza a Caprishow, reconhecida como a maior festa do interior do Nordeste. De outro, Afrânio, que nas últimas edições da sua tradicional Expoleite, tem adotado regras que beiram o abuso de poder e a manipulação, contrariando tudo o que uma festa paga com recursos públicos deveria ser.
Na Caprishow, mesmo sendo um evento grandioso, maior até mesmo em estrutura do que a nossa festa, o princípio é simples e nobre: respeito. Por lá, ninguém proíbe o cidadão de entrar com uma garrafa de água, ninguém obriga ninguém a consumir o que não quer, ninguém tira o direito sagrado de cada um escolher o que comer, beber ou como se divertir. Mais do que isso: os filhos da terra, os trabalhadores que esperam o ano inteiro por essa oportunidade para garantir uma renda extra e ajudar no sustento da família, são os principais beneficiados porque a organização entendeu desde o primeiro dia que festa feita com o dinheiro do povo existe para fomentar a economia local, deixar o lucro nas mãos de quem realmente é o dono dessa festa: o próprio povo dormentense. Não há conluio com forasteiros, não há esquemas para tirar o ganha-pão de quem vive dessa luta.
Já por aqui, na Expoleite, o cenário é outro, e chega a ser revoltante. O que deveria ser uma festa da comunidade, feita com o dinheiro que cada um de nós paga em impostos, parece muito mais um evento privado, bancado com recursos públicos mas comandado por regras arbitrárias. Pasmem: proíbem o cidadão de entrar com uma simples garrafa de água, tudo na tentativa de obrigá-lo a comprar, contra a sua vontade, apenas o que a organização determina que seja vendido dentro do espaço. Homens, mulheres e crianças são submetidos a imposições que ferem a liberdade individual, enquanto os trabalhadores locais, os nossos trabalhadores, que esperam meses por essa chance, veem suas oportunidades diminuídas, o seu lucro desviado, muitas vezes passando a ser meros coadjuvantes, enquanto o negócio grande fica nas mãos de quem não tem raiz nem compromisso com a nossa terra.
E quando se critica, logo vem a desculpa pronta: “Ah, mas em Petrolina é assim!”. E daí? Por que será que temos sempre que copiar o pior exemplo, ao invés de olhar para o que é bom, correto e justo que está logo ali, ao lado? Dizem também: “Mas temos que modernizar!”. Modernizar? Desde quando arbitrariedade, abuso de poder e desrespeito ao cidadão são sinônimos de modernidade? Isso não é evolução, é retrocesso, é autoritarismo disfarçado de gestão.
Além do mais, é uma comparação que não tem pé nem cabeça. Petrolina tem uma realidade completamente diferente: números de habitantes, PIB e renda per capita são dimensões que não se aproximam nem de longe da nossa realidade. O nosso exemplo de verdade, o modelo que serve para nós, está bem ali, a poucos quilômetros: Dormentes. Lá, eles provaram que é possível — e muito possível — fazer uma festa verdadeiramente pública, onde o público é livre, onde o dinheiro do povo retorna para o povo, onde o respeito vem antes de qualquer interesse.
O parabéns hoje vai para Dormentes e para todos os organizadores da Caprishow, que entenderam o recado: festa pública é para ser do cidadão, não para ser ferramenta de poder ou negócio de poucos. Que um dia Afrânio acorde, pare de imitar modelos que não servem para a nossa realidade e aprenda, de uma vez por todas, com quem realmente sabe fazer festa para o povo e com o dinheiro do povo.
GSilva Independent
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