Há um fenômeno curioso e ao mesmo tempo doloroso na nossa política: quanto mais desprovido de recursos, cultura e visão crítica vive o eleitor, mais ele se sente fascinado e até orgulhoso de votar em quem está muito acima — em riqueza, em berço, em realidade — da sua própria vida. Parece um contrassenso, mas tem explicação que vem de longe, desde a formação do nosso povo.
Muitos pensam assim: “ele é rico, então deve ser alguém de sucesso, alguém importante, alguém que pode me levar junto”. Fazem uma confusão ingênua: acham que quem tem muito dinheiro tem também sabedoria, bondade e vontade de partilhar. Esquecem que, na maioria das vezes, o político rico não enriqueceu para distribuir — enriqueceu para permanecer no topo, usando a carência e a esperança alheia como escada.
E o mais impressionante: mesmo quando esses candidatos demonstram claramente que sentem nojo, distância e desprezo pelo povo, fechando os vidros dos carrões ao passar, evitando contato, tratando com indiferença depois de eleitos — ainda assim são idolatrados. Parece que o brilho do ouro cega mais do que a própria razão. É como se o eleitor, que tem tão pouco, se sentisse “mais alguém” por estar ao lado de quem tem tudo — como se um pouco daquele brilho fosse passar para ele, e não percebe que é usado apenas como degrau, nunca como companheiro.
Por outro lado, aparece alguém simples, conhecido, que vive a mesma realidade, que luta pelas causas de todos — e aí o tratamento é outro: desconfiança, crítica, desprezo. Como se fosse “pouco” para merecer voto. Como se valesse mais quem ignora o povo do que quem faz parte dele.
A verdade é dura: o político rico que você vota com tanta devoção não pretende lhe dar nada do que tem. Nos bastidores, muitos riem, sentem desprezo e nojo. Usam sua esperança, sua fé e sua carência apenas para subir mais alto. E quando chegam lá, fecham a janela e seguem sozinhos
Enquanto isso, o eleitor continua fiel: apaixonado por quem não lhe dá nem uma flor para cheirar, todavia desconfiado com quem faria de tudo para melhorar seu dia. Talvez porque a ilusão do brilho da riqueza alheia brilha mais do que o respeito e fraternidade de quem vive a mesma realidade social todo dia
Portanto, enquanto o voto for guiado por admiração cega ou fetiche fantasioso e não por consciência e conhecimento, a escada continuará sendo usada para subir — mas nunca para levar nenhum trouxa junto. Enfim, porque diabos eleitor liso é tarado por candidato que tem dinheiro, ainda que esnobe, monstro ou sem empatia, tipo dos piores? - Chega ser tão ridícula e mesquinha tal ilusão, que muitos ficam indignados com parentes que se candidatam só por causa do tesão que sentem por votar em quem tem dinheiro, como se quem tem, fosse repartir com os tais, suas posses. Não é um tremendo devaneio tolo isso?
✍️ GSilva – Reflexão

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